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Ricardo Marinheiro

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Sobre Ricardo Marinheiro

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  1. 1º DE JANEIRO DE 2021 A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ 1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados. O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis. É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição. Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer. 2. Deus Criador, origem da vocação humana ao cuidado Em muitas tradições religiosas, existem narrativas que se referem à origem do homem, à sua relação com o Criador, com a natureza e com os seus semelhantes. Na Bíblia, o livro do Génesis revela, desde o início, a importância do cuidado ou da custódia no projeto de Deus para a humanidade, destacando a relação entre o homem (’adam) e a terra (’adamah) e entre os irmãos. Na narração bíblica da criação, Deus confia o jardim «plantado no Éden» (cf. Gn 2, 8) às mãos de Adão com o encargo de «o cultivar e guardar» (Gn 2, 15). Isto significa, por um lado, tornar a terra produtiva e, por outro, protegê-la e fazê-la manter a sua capacidade de sustentar a vida. Os verbos «cultivar» e «guardar» descrevem a relação de Adão com a sua casa-jardim e indicam também a confiança que Deus deposita nele fazendo-o senhor e guardião de toda a criação. O nascimento de Caim e Abel gera uma história de irmãos, cuja relação em termos de tutela ou custódia será vivida negativamente por Caim. Depois de ter assassinado o seu irmão Abel, a Deus que lhe pergunta por ele, Caim responde: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Com certeza! Caim é o «guarda» de seu irmão. «Nestas narrações tão antigas, ricas de profundo simbolismo, já estava contida a convicção atual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros». 3. Deus Criador, modelo do cuidado A Sagrada Escritura apresenta Deus, além de Criador, como Aquele que cuida das suas criaturas, em particular de Adão, Eva e seus filhos. O próprio Caim, embora caia sobre ele a maldição por causa do crime que cometera, recebe como dom do Criador um sinal de proteção, para que a sua vida seja salvaguardada (cf. Gn 4, 15). Este facto, ao mesmo tempo que confirma a dignidade inviolável da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, manifesta também o plano divino para preservar a harmonia da criação, porque «a paz e a violência não podem habitar na mesma morada». É precisamente o cuidado da criação que está na base da instituição do Shabbat que, além de regular o culto divino, visava restabelecer a ordem social e a solicitude pelos pobres (Gn 2, 1-3; Lv 25, 4). A celebração do Jubileu, quando se completava o sétimo ano sabático, consentia uma trégua à terra, aos escravos e aos endividados. Neste ano de graça, cuidava-se dos mais vulneráveis, oferecendo-lhes uma nova perspetiva de vida, para que não houvesse qualquer necessitado entre o povo (cf. Dt 15, 4). Digna de nota é também a tradição profética, onde o auge da compreensão bíblica da justiça se manifesta na forma como uma comunidade trata os mais frágeis no seu seio. É por isso que particularmente Amós (2, 6-8; 8) e Isaías (58) erguem continuamente a voz em prol de justiça para os pobres, que, pela sua vulnerabilidade e falta de poder, são ouvidos só por Deus, que cuida deles (cf. Sal 34, 7; 113, 7-8). 4. O cuidado no ministério de Jesus A vida e o ministério de Jesus encarnam o ápice da revelação do amor do Pai pela humanidade (Jo 3,16). Na sinagoga de Nazaré, Jesus manifestou-Se como Aquele que o Senhor consagrou e enviou a «anunciar a Boa-Nova aos pobres», «a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos» (Lc 4, 18). Estas ações messiânicas, típicas dos jubileus, constituem o testemunho mais eloquente da missão que o Pai Lhe confiou. Na sua compaixão, Cristo aproxima-Se dos doentes no corpo e no espírito e cura-os; perdoa os pecadores e dá-lhes uma nova vida. Jesus é o Bom Pastor que cuida das ovelhas (cf. Jo 10, 11-18; Ez 34, 1-31); é o Bom Samaritano que Se inclina sobre o ferido, trata das suas feridas e cuida dele (cf. Lc 10, 30-37). No ponto culminante da sua missão, Jesus sela o seu cuidado por nós, oferecendo-Se na cruz e libertando-nos assim da escravidão do pecado e da morte. Deste modo, com o dom da sua vida e o seu sacrifício, abriu-nos o caminho do amor e disse a cada um: «Segue-Me! Faz tu também o mesmo» (cf. Lc 10, 37). 5. A cultura do cuidado, na vida dos seguidores de Jesus As obras de misericórdia espiritual e corporal constituem o núcleo do serviço de caridade da Igreja primitiva. Os cristãos da primeira geração praticavam a partilha para não haver entre eles alguém necessitado (cf. At 4, 34-35) e esforçavam-se por tornar a comunidade uma casa acolhedora, aberta a todas as situações humanas, disposta a ocupar-se dos mais frágeis. Assim, tornou-se habitual fazer ofertas voluntárias para alimentar os pobres, enterrar os mortos e nutrir os órfãos, os idosos e as vítimas de desastres, como os náufragos. E em períodos sucessivos, quando a generosidade dos cristãos perdeu um pouco do seu ímpeto, alguns Padres da Igreja insistiram que a propriedade é pensada por Deus para o bem comum. Santo Ambrósio afirmava que «a natureza concedeu todas as coisas aos homens para uso comum. (…) Portanto, a natureza produziu um direito comum para todos, mas a ganância tornou-o um direito de poucos». Superadas as perseguições dos primeiros séculos, a Igreja aproveitou a liberdade para inspirar a sociedade e a sua cultura. «As necessidades da época exigiam novas energias ao serviço da caridade cristã. As crónicas históricas relatam inúmeros exemplos de obras de misericórdia. De tais esforços conjuntos, resultaram numerosas instituições para alívio das várias necessidades humanas: hospitais, albergues para os pobres, orfanatos, lares para crianças, abrigos para forasteiros, e assim por diante». 6. Os princípios da doutrina social da Igreja como base da cultura do cuidado A diakonia das origens, enriquecida pela reflexão dos Padres e animada, ao longo dos séculos, pela caridade operosa de tantas luminosas testemunhas da fé, tornou-se o coração pulsante da doutrina social da Igreja, proporcionando a todas as pessoas de boa vontade um precioso património de princípios, critérios e indicações, donde se pode haurir a «gramática» do cuidado: a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação. * O cuidado como promoção da dignidade e dos direitos da pessoa «O conceito de pessoa, que surgiu e amadureceu no cristianismo, ajuda a promover um desenvolvimento plenamente humano. Porque a pessoa exige sempre a relação e não o individualismo, afirma a inclusão e não a exclusão, a dignidade singular, inviolável e não a exploração».[8] Toda a pessoa humana é fim em si mesma, e nunca um mero instrumento a ser avaliado apenas pela sua utilidade: foi criada para viver em conjunto na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros são iguais em dignidade. E desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres, que recordam, por exemplo, a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes, os marginalizados, o nosso «próximo, vizinho ou distante no espaço e no tempo». * O cuidado do bem comum Cada aspeto da vida social, política e económica encontra a sua realização, quando se coloca ao serviço do bem comum, isto é, do «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição». Por conseguinte os nossos projetos e esforços devem ter sempre em conta os efeitos sobre a família humana inteira, ponderando as suas consequências para o momento presente e para as gerações futuras. Quão verdadeiro e atual seja tudo isto, no-lo mostra a pandemia Covid-19, perante a qual «nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários, todos chamados a remar juntos», porque «ninguém se salva sozinho» e nenhum Estado nacional isolado pode assegurar o bem comum da própria população. * O cuidado através da solidariedade A solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, não como um sentimento vago, mas como «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos». A solidariedade ajuda-nos a ver o outro – quer como pessoa quer, em sentido lato, como povo ou nação – não como um dado estatístico, nem como meio a usar e depois descartar quando já não for útil, mas como nosso próximo, companheiro de viagem, chamado a participar, como nós, no banquete da vida, para o qual todos somos igualmente convidados por Deus. * O cuidado e a salvaguarda da criação A encíclica Laudato si’ reconhece plenamente a interconexão de toda a realidade criada, destacando a exigência de ouvir ao mesmo tempo o grito dos necessitados e o da criação. Desta escuta atenta e constante pode nascer um cuidado eficaz da terra, nossa casa comum, e dos pobres. A propósito, desejo reiterar que «não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos». Na verdade «paz, justiça e salvaguarda da criação são três questões completamente ligadas, que não se poderão separar para ser tratadas individualmente, sob pena de cair novamente no reducionismo». 7. A bússola para um rumo comum Assim, num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das nações e entre elas, gostaria de convidar os responsáveis das Organizações internacionais e dos Governos, dos mundos económico e científico, da comunicação social e das instituições educativas a pegarem nesta «bússola» dos princípios acima lembrados para dar um rumo comum ao processo de globalização, «um rumo verdadeiramente humano». Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais. A bússola dos princípios sociais, necessária para promover a cultura do cuidado, vale também para as relações entre as nações, que deveriam ser inspiradas pela fraternidade, o respeito mútuo, a solidariedade e a observância do direito internacional. A este respeito, hão de ser reafirmadas a proteção e a promoção dos direitos humanos fundamentais, que são inalienáveis, universais e indivisíveis. Deve ser recordado também o respeito pelo direito humanitário, sobretudo nesta fase em que se sucedem, sem interrupção, conflitos e guerras. Infelizmente, muitas regiões e comunidades já não se recordam dos tempos em que viviam em paz e segurança. Numerosas cidades tornaram-se um epicentro da insegurança: os seus habitantes fatigam a manter os seus ritmos normais, porque são atacados e bombardeados indiscriminadamente por explosivos, artilharia e armas ligeiras. As crianças não podem estudar. Homens e mulheres não podem trabalhar para sustentar as famílias. A carestia lança raízes em lugares onde antes era desconhecida. As pessoas são obrigadas a fugir, deixando para trás não só as suas casas, mas também a sua história familiar e as raízes culturais. As causas de conflitos são muitas, mas o resultado é sempre o mesmo: destruição e crise humanitária. Temos de parar e interrogar-nos: O que foi que levou a sentir o conflito como algo normal no mundo? E, sobretudo, como converter o nosso coração e mudar a nossa mentalidade para procurar verdadeiramente a paz na solidariedade e na fraternidade? Quanta dispersão de recursos para armas, em particular para as armas nucleares, recursos que poderiam ser utilizados para prioridades mais significativas a fim de garantir a segurança das pessoas, como a promoção da paz e do desenvolvimento humano integral, o combate à pobreza, o remédio das carências sanitárias! Aliás, também isto é evidenciado por problemas globais, como a atual pandemia Covid-19 e as mudanças climáticas. Como seria corajosa a decisão de criar «um “Fundo mundial” com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres»! 8. Para educar em ordem à cultura do cuidado A promoção da cultura do cuidado requer um processo educativo, e a bússola dos princípios sociais constitui, para o efeito, um instrumento fiável para vários contextos relacionados entre si. A propósito, gostaria de fornecer alguns exemplos: A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável. Sempre em colaboração com a família, temos outros sujeitos encarregados da educação como a escola e a universidade e analogamente, em certos aspetos, os sujeitos da comunicação social. São chamados a transmitir um sistema de valores fundado no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada comunidade linguística, étnica e religiosa, de cada povo e dos direitos fundamentais que dela derivam. A educação constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias. As religiões em geral, e os líderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis. Recordo, a propósito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: «Não temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidadãos honestos e leais, não fomenta rivalidades nem divisões, procura promover a liberdade sadia, a justiça social, a paz; se tem alguma preferência é pelos pobres, a educação dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos». A todas as pessoas empenhadas no serviço das populações, nas organizações internacionais, governamentais e não governamentais, com uma missão educativa, e a quantos trabalham, pelos mais variados títulos, no campo da educação e da pesquisa, renovo o meu encorajamento para que se possa chegar à meta duma educação «mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão». Espero que este convite, dirigido no contexto do Pacto Educativo Global, encontre ampla e variegada adesão. 9. Não há paz sem a cultura do cuidado A cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz. «Em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro». Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a «bússola» dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum. Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança. Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros». Vaticano, 8 de dezembro de 2020. Franciscus
  2. Realizou-se nos dias 7 e 8 de setembro no Santuário de Nossa Senhora de Fátima o 46º Encontro Nacional do nosso movimento que este ano, como preparação e reflexão, por estarmos a terminar o Ano Missionário, escolheu como tema: «DÁ-TE EM MISSÃO» Da parte da tarde, no dia 7, começou a sentir-se o recinto mais colorido e movimentado pela chegada dos jovens e casais do movimento que por ele se movimentavam a caminho do Centro Paulo Vi onde se ia iniciar a peregrinação com o acolhimento dos peregrinos e as celebrações da Penitência coletiva e individual. Já à distância e á medida que nos íamos aproximando, sentíamos um ambiente de juventude e de alegria, pelos acordes das violas e os cânticos que ecoavam. Quando nos aproximamos sentimos a alegria contagiante de algumas centenas de jovens num ambiente festivo e colorido pala variedade de cores das camisolas que vestiam, cantando, saltando, girando, vivendo a alegria de serem jovens. Por volta das 14h45, os jovens cantando começaram a entrar no Salão do Bom Pastor sendo as dioceses tornadas presentes e identificadas por um cântico. O salão com 900 cadeiras, ficou completo. Iniciou-se a celebração coletiva da penitência com um cântico apropriado durante o qual alguns jovens desmontaram um puzzle representando um vaso, espalhando as peças pelo salão enquanto cenas de destruição dos homens iam passando num écran.... Após a proclamação do Evangelho, o celebrante, P. Valente, num breve comentário, explicou a razão pela qual a nossa peregrinação se inicia sempre com a celebração da penitência. No fim da Celebração Coletiva da penitência, que terminou com a reconstrução do puzzle, enquanto os jovens que não precisavam de reconciliação individual regressaram para o átrio do Centro Paulo VI fazendo a Festa da Ressurreição. Enquanto algumas dezenas de jovens aguardavam em silêncio a oportunidade de serem acolhidos por um sacerdote. Quando soaram, no relógio da Basílica de Nossas Senhora do Rosário, as 17H00, o hino dos convívios, entoado por um coro de convivas da diocese de Santarém que orientava a celebração a Nossa Senhora, ecoou por todo o recinto, enquanto os convivas de todas as dioceses com os seus símbolos e estandartes, em cunha, desfilavam para a Capelinha das Aparições Depois de concentrados em frente da Capelinha, o Assistente Nacional e Fundador do Movimento, P. Valente de Matos, saudou os peregrinos, realçando a presença dos jovens e casais convivas, afirmando: Ao iniciarmos este 46º Encontro Nacional do nosso movimento, eu quero saudar e felicitar todos os jovens e casais convivas e desejar a todos os peregrinos que neste momento se encontram neste lugar sagrado onde Nossa Senhora apareceu aos 3 pastorinhos, as boas vindas e as melhores bênçãos de Deus. Escolheu o movimento para reflexão e preparação desta peregrinação, o tema «DÁ-(TE) EM MISSÃO» Ao terminar este ANO MISSIONÁRIO em que os nossos Bispos mobilizaram todos os cristãos com a proposta: TODOS, TUDO E SEMPRE À MISSÃO, quando estamos a preparar as jornadas mundiais da juventude, quando no último Sínodo dos bispos, sobre o lugar dos jovens na Igreja, e na respetiva exortação final «CRISTO VIVE» o Papa Francisco afirmou «OS JOVENS SÃO A ESPERANÇA DA MISSÃO», E quando D. António Augusto Azevedo, bispo do Sínodo, afirmou: «O sínodo será oportunidade perdida se a igreja não valorizar o papel dos jovens», forçosamente os jovens hoje tem que ser uma preocupação dominante da igreja. “Vale a pena viver a sua mensagem pois só ela preenche os vazios dos corações e dá sentido à nossa vida”; Este tema «dá-te em missão» é uma resposta do movimento dos Convívios Fraternos a está preocupação da Igreja e do Papa que gostaríamos encontrasse espaço, resposta e apoio em todas as dioceses de Portugal e a nível nacional As palavras que há 2 mil anos Cristo Ressuscitado, antes da sua Ascensão ao Céu, dirigiu aos seus apóstolos, «Ide, ensinai todas as “nações” a cumprir tudo quanto vos ensinei, e eu estarei sempre convosco» (Mat. 28,19 9), queridos jovens e casais convivas: a vós que fizestes um inesquecível encontro de amor com Cristo, na experiência do vosso Convívio, que vos entusiasmaste por Ele, que sentiste toda a Sua sedução e a sua infinita misericórdia e com Ele, consciente e responsavelmente, vos comprometeste, reassumindo solenemente o vosso compromisso batismal, eu queria lembrar-vos: Que este mandato, este envio feito há dois mil anos aos apóstolos, é hoje e aqui dirigido a cada um de vós neste 46º Encontro Nacional, aos pés de Maria, a profetisa dos novos tempos, enviada por seu filho aos Santos Francisco e Jacinta e à Beata Lúcia para, há 102 anos, pedir aos homens, a todos nós, conversão e mudança de vida. Nesta sociedade materialista e consumista em que vivemos e em que, sobretudo os jovens, se ausentaram de Deus, vivem o relativismo da vida, se deixam dominar pelo virtual tantas vezes alheando-se das realidades e baralhando-se com tantas quimeras, procurando apenas o material, o ter o possuir, o gozar os prazeres da vida sem quaisquer vislumbres do sobrenatural, do divino; porque os profetas da antiga Aliança, com a vinda de Cristo ao mundo acabaram, e nesta nova Aliança todos nós, por inerência do nosso batismo, somos profetas, porque participamos do profetismo de Cristo; por isso, queridos convivas, como profetas destes tempos, ide agora em missão, revelar a todos os jovens de hoje a infinita misericórdia de Deus para connosco testemunhar o amor inesgotável de Cristo por todos e cada um de nós levado até à morte de Cruz; ide proclamar que Ele está vivo, ressuscitado no meio de nós e em nós pelo seu Espírito, dizer-lhes que vale a pena viver a sua mensagem pois só ela preenche os vazios dos corações e dá sentido à nossa vida; ide pedir-lhes que O aceitem sem medo, mas com alegria, porque só Ele é o amigo de agora, de todas as horas, que nunca atraiçoa, que nunca abandona, sempre disponível para nos ajudar e perdoar; ide lembrar-lhes que a vida não acaba com a morte, mas desfeita esta morada terrena que é o nosso corpo, como nos afirma a liturgia da Igreja, uma nova morada se adquire na glória de Deus onde seremos para sempre felizes. Não abdiqueis de tão grande responsabilidade, de tão nobre missão e não esqueçais as palavras dos Padres do Vaticano II: os jovens, pela sua condição, são os primeiros e os privilegiados apóstolos dos outros jovens. Ide, dai-vos à missão. Terminada a Celebração a Nossa Senhora as dioceses dirigiram-se para diversos locais por elas escolhidos para fazer o seu encontro diocesano. No fim do terço e da Procissão das Velas, por volte das 23h00, começou o anfiteatro do Centro Paulo VI a encher-se de convivas para participar no Sarau, este ano subordinado ao tema «DÁ-TE EM MISSÃO» Houve nele momentos de paz, de reflexão, de juventude, de alegria, de luz e de som inolvidáveis a que assistiram milhares de convivas que enchiam o anfiteatro. Felicitamos as 11 dioceses que nele participaram com tanto engenho e arte. A peregrinação teve o seu momento alto na celebração da Eucaristia às 12h00 no altar do recinto. Pela primeira vez, nestes 46 anos, não foi permitido ao movimento, no momento de ação de graças, fazer a consagração de todas as dioceses a Nossa Senhora, com a respetiva encenação, o que desmotivou muitos jovens de nela participarem e a dispersão dos presentes pelas sombras do recinto. Presidiu à Concelebração Eucarística, o Sr. D. Manuel Felício, Bispo da Guarda, que na sua homília, referindo-se ao movimento, afirmou: Somos peregrinos de Fátima, num dia em que celebramos também o aniversário natalício da nossa Mãe do Céu, o dia de hoje, 8 de setembro. Com esta razão acrescida, saúdo todos os peregrinos aqui presentes, de forma particular os grupos de peregrinos vindos das mais variadas procedências, tanto de Portugal como do estrangeiro e que de qualquer forma se fizeram anunciar; saúdo, particularmente os jovens dos Convícios Fraternos que hoje fazem também a sua peregrinação nacional acompanhados pelo sacerdote, Rev.do Padre Valente Matos, seu fundador, há 50 anos, celebrados precisamente há um ano atrás. Quando todos os nossos olhares se dirigem já para a jornada Mundial da juventude, -que, por graça de Deus, se realizará em Portugal daqui a três anos, queremos dizer a todos os jovens aqui presentes quanta esperança neles colocamos e quanto desejamos que a preparação e realização desta jornada Mundial da Juventude possa despertar novo entusiasmo em todos eles e nas comunidades que os acompanham. Caros jovens dos convívios fraternos, na vossa memória estão certamente aqueles três dias de experiência forte de encontro vivo com a Pessoa de Cristo, em clima de festa, de partilha fraterna, de oração e de silêncio, E também lembrais como eles modificaram profundamente a vossa vida, fazendo do quarto dia aquela novidade de entrega generosa ao serviço dos irmãos, quer nas comunidades paroquiais, quer nos diferentes ambientes, que, de facto, esperam sobretudo de vós, a novidade e a diferença do Evangelho. A nossa oração de hoje é em particular por vós e por todos os jovens, porque - e lembramos as recomendações do Papa Francisco a milhares de jovens recentemente em Moçambique, num encontro inter-religioso - “É preciso viver a vida com alegria e muita esperança; e este é o grande presente que o mundo espera de vós”. Com Maria, nossa Mãe Santíssima, neste dia do seu aniversário natalício, queremos aprender, antes de mais a escutar e meditar a Palavra de Deus que acaba de ser proclamada nesta nossa assembleia. Seguidamente D. Manuel continuou a sua reflexão sobre a liturgia da palavra da Eucaristia, e terminou a sua reflexão: Desejo agora lembrar que estamos a viver o ‘nosso estatuto de discípulos de Cristo em ano missionário e tendo à porta o especial outubro missionário. Somos convidados a levar a sério o mandato de Jesus Cristo para irmos e levarmos a Boa Nova a todos. O exercício desta responsabilidade missionária, como lembra o Papa Francisco, começa necessariamente pelo encontro vivo com a Pessoa de Jesus Cristo, sem o qual nada vale a pena e tudo é vazio de valores e de sentido. Depois lembra-nos a necessidade de revisitarmos a vida de tantos santos que se deram sem medida e por inteiro ‘à grande causa das missões e alguns até ao martírio. “Somos convidados a levar a sério o mandato de Jesus Cristo para irmos e levarmos a Boa Nova a todos.” Este ano missionário é também oportunidade para aprofundarmos ou mesmo retomarmos os caminhos de formação na Fé. O Papa lembra-nos ainda o dever da partilha missionária, em meios materiais e humanos, com as Igrejas mais carenciadas. Estamos também a iniciar um novo ano pastoral. Confiamo-lo à proteção maternal de Maria Santíssima, Senhora de Fátima, que tão bem nos acolhe neste seu Santuário O 46º Encontro Nacional terminou com a Festa da Despedida, este ano realizada no Parque nº 8 .Embora um pouco isolado dos outros parques, o espaço foi melhor e as dioceses ali afluíram para um último ato do nosso encontro nacional: a Festa da Despedida, festa quase informal onde sobressaiu a alegria , a juventude , a amizade e partilha das dioceses , a troca de lembranças e, finalmente os abraços de despedida e a mesma boa disposição e esperança: mesmo assim foi bom! Até sempre!...
  3. Os Mártires que sacrificam a sua vida por amor a Jesus Cristo, continuam em nossos dias Ver artigo completo
  4. Irmã Tóna: uma mártir dos nossos dias..

    Foi nos dias 24, 25 e 26 de março de 1975, que a jovem Maria Antónia (Tóna) Guerra de Pinho, participou no 27º Convívio Fraterno, nessa altura com 17 anos, realizado no Seminário das Missões em Cucujães, num grupo de 53 participantes. Como todos os participantes também ela se entusiasmou pelo grande Amigo Jesus Cristo por quem se foi deixando seduzir e apaixonar, começando a sentir que Ele queria dela uma maior entrega a Ele e aos outros. Assim começou a sentir o chamamento de Cristo para a vida religiosa, Jovem extrovertida manifestava ame grande alegria e onde ela estava, todos se sentiam bem com a alegria e a paz que transmitia. Ao fim de 4 anos de dúvida, de incertezas e de questionar-se sobre a sua vocação, o seu chamamento dizendo, como Maria, o seu «SIM » ao Senhor, ingressando , aos 21 anos, em abril de 1978 na Congregação das Servas de Maria Ministras dos Enfermos Ao fim de 40 anos de consagração e dedicação aos doentes, aos marginalizados, aos que sofriam no corpo e na alma: Como escreve, “ela era a mão consoladora de Deus para animar, confortar, fortalecer e curar .... Que missão bela e maravilhosa?!...» Foi no exercício dessa missão bela e maravilhosa que a Irmã Tóna, quando regressava da Eucaristia onde fora fortalecer o seu AMOR , no dia 8 de setembro , que dando generosamente e em coerência com a sua vida de religiosa «boleia» no carro em que seguia a um «marginal» que bem conhecia e que tentava ajudar. Aproveitando essa ocasião, para abusar dela que, na defesa da sua castidade e dos seus votos de consagração a Cristo, resistiu à tentativa do seu carrasco que a sufocou até à morte. Participou nas equipas coordenadoras de 2 convívios da diocese do Porto (cidade) e em um da diocese de Aveiro. A irmã Tona, como por todos era conhecida, aos 60 anos levou e seu amor a Jesus Cristo até às últimas consequências na defesa da sua consagração na vida religiosa. Num dos seus testemunhos escritos em maio de 2006 neste jornal, ela dirigindo-se aos jovens, sobretudo convivas, pedia: «TU JOVEM, QUE SENTES O APELO DE DEUS CONVIDANDO-TE A SEGUIR JESUS CRISTO, NÃO HESITES!... SEGUE-O COM A DETERMINAÇÃO DOS APÓSTOLOS QUE, IMEDIATAMENTE, DEIXARAM AS REDES, DEIXARAM TUDO PARA O SEGUIR. PODEIS CONTAR COM A CERTEZA DA MINHA ORAÇÃO!...» A partir de agora não contamos mais com a oração, mas com a INTERCESSÃO da nossa querida Irmã Tóna, agora no Céu, contada no número incontável dos mártires desta Igreja, de todos aqueles que, através destes mais de 2 mil, levaram o seu amor a Jesus Cristo até darem a vida por Ele. Seguem alguns testemunhos escritos por ela neste jornal e dedicados aos convivas: O Despertar da Vocação «Senhor, Tu seduziste-me e eu deixei-me seduzir» (Jer. 20, 7). Alguém me pediu um pequeno testemunho sobre a minha vocação. Faço-o com muito gosto, porque cada vez que recordo o benefício que o Senhor me fez, chamando-me, sinto nascer em mim um hino de alegria e ação de graças. Aos dezoito anos fui a um Convívio Fraterno só com a curiosidade de ver o que nele se realizava; no segundo dia o Convívio Fraterno já não era apenas curiosidade: em mim começou uma certa inquietude, uma «chamada» … Assim se passaram meses e até anos... Entretanto ia perguntando a mim mesma como havia pessoas que sacrificavam a sua vida dedicando-se ao próximo. Ao mesmo tempo sentia um certo receio ao pensar nos sacrifícios da vida Religiosa... Como pode ser que eu tenha desejos de me dedicar ao serviço de Deus se não for porque Ele me chama? Não pude resistir mais. E, num arranque de generosidade, fui falar com o meu Pároco para que me indicasse alguma Congregação que trabalhasse com enfermos, velhinhos ou pobres... Preparei tudo para o ingresso na Congregação das «SERVAS DE MARIA». Depois de dar um adeus generoso a tudo, cheguei à porta do Noviciado, lugar onde reina a paz e a alegria. Queridos(as) amigos(as), cada um de nós tem uma «história». Deus chama de distintas maneiras. Um abraço em Cristo da Tona Guerra (do 27.º C. F.) Religiosas «Servas de Maria» Plaza de Chamberi, 7 Março de 1980 O Senhor Chamou-me «O motivo desta carta é para comunicar-lhes a minha profissão solene na vida religiosa. Depois de ter permanecido no Instituto das Servas de Maria este tempo de noviciado, posso dizer que me sinto feliz. Feliz por ter encontrado o AMOR na minha vida. E agora desejo entregar-me a Ele, para que Ele me consagre, me faça sua, me dedique exclusivamente ao seu serviço por meio da Profissão Religiosa. Creio não ignorar as minhas dificuldades desta vida!... Se me pede que seja humilde, caritativa, desprendida, abnegada, alegre… e tudo isto comporta uma renúncia, uma doação total um – porque não hei-de dizer? – morrer dia-a-dia para mim, estou disposta para a imolação da caminhada. Vou fazer um voto de castidade. E este voto exigir-me-á muitas vezes a solidão do coração, porque nascemos para amar e ser amadas e esta renúncia me é muito dolorosa. Mas Cristo, que me ama, só Ele me pode ajudar nessa solidão humana!... toda a minha vida fica pendendo deste AMOR que brotará num Amor universal, dado a todos os homens!... Farei o meu voto de pobreza por o reino dos Céus, com todas as suas renúncias e exigências até essa atitude de total desprendimento, semelhante à de Cristo, que quero atingir!... E se tudo isto já é tão custoso, ainda me resta o voto de Obediência, não mais fácil, pois com ele tenho que me oferecer a total entrega da minha vontade, submetendo-me aos superiores através dos quais me chegará a vontade do Pai. Foi com esta vontade e obediência que levou Jesus a morrer na Cruz!... É fácil compreender que este caminho não vai ser de rosas!... Apesar de tudo unirei o meu “SIM” ao de Cristo, para que a minha obediência seja redentora. São muitas as renuncias assim como as dificuldades que encontrarei na missão especifica de Serva de Maria, ao lado dos enfermos como na vida comunitária!... Na verdade, não é que eu não me sinta capaz de viver esta vida evangélica!... Mas posso dizer que também sinto o peso da minha debilidade e se alguma vez duvidei em dar este passo isso aconteceu somente por minha pequenez e, talvez, medo de não LHE ser fiel!... Tudo isto foi solucionado com o abandono nas mãos d’Ele, com uma confiança inesgotável no seu amor, na sua graça e fidelidade que não me faltarão!... «Ponho em Maria a minha confiança, também, para que ela me ensine sua fidelidade e entrega total a Cristo, como Senhora do «SIM». Sor Antónia Guerra – Tona Abril 1982 O Meu Carinho e Agradecimento De repente nas nossas vidas nos chama a atenção uma presença constante e a miúdo silenciosa. Os que tivemos a felicidade de ter descoberto a Cristo vivo, revolucionário e transformante, não podemos ser outra senão ser «ELO». Elo de Deus... Confessar a Cristo entre os homens, é uma condição, mas também implica uma renúncia da própria vida pela Sua. Ter os mesmos sentimentos de Cristo, é fazer-se como ele caminhante e recolher o homem de entre os mil caminhos da vida, curar-lhe a tratar-lhe das suas feridas mais profundas e das suas insuportáveis dores ... É preferir caminhar ... Estar sempre na rua ... partindo despojados de toda a acomodação e bem-estar que, geralmente, os outros levam consigo em todos os tempos e lugares. Os Convívios-Fraternos comemoram este ano o 25º aniversário e, com «eles», de alguma maneira, todos celebramos esses 25 anos de Vida Nova. Se recordarmos hoje o nosso passado com carinho e agradecimento, não só por justiça, mas também por gratidão e se, sobretudo acreditamos n’Ele, é porque um dia fizemos a experiência dum convívio-Fraterno. Assim hoje, Deus é o Senhor da nossa história. E, por isso, queremos segui-l’O e abrir no mundo caminhos de esperança. Porque estamos convencidos de que vale a pena seguir pelas mesmas pisadas de Cristo e porque foi no nosso convívio que o descobrimos, a festa dos 25 anos dos Convívios, é também a nossa festa. Ir. Tóna, 27º CF “Deixei também as minhas redes e o meu barco” para o seguir Felicidades Convívios Fraternos. pelos teus 1000 C.F.! Parabéns e um Bem-haja ao Pe. Valente pela sua “força e constância” cm fazer tanto bem à igreja no seu trabalho com os jovens. Sabes, eu sou a Tóna Guerra do 27º C.F. Dou graças a Deus Pai, porque me convidou a seguir o seu Filho, Jesus Cristo, para uma entrega a Deus e ao serviço da humanidade no serviço específico do “meu carisma”: servir aos doentes nas suas próprias casas ... E, também eu estou no meu “ano jubilar”, 25 anos de vida consagrada. Tinha 21 anos quando deixei “as minhas redes, o meu barco”. Um dia do mês de abril de 1979. A minha mãe disse-me antes de sair de casa pela última vez: - filha que sejas boa religiosa, que sejas feliz, e, já sabes que uma freira triste é uma triste freira. · O meu pai limitou-se em dizer que a porta por onde saía ficava aberta em caso de ver que o meu caminho não era aquele. Entretanto não encontrei o Senhor só aos 21 anos; o Senhor ia-me “modelando” pouco a pouco. Cresci numa família de 7 irmãos. Era a segunda mais velha e aos mais velhos sempre toca ser o braço direito da mãe. A verdade é que sentia um instinto natural de querer ajudar. Mas sentia que Deus Ia-me cada vez mais chamando, até que cheguei ao ponto de pensar: - Por quê não entregar-me toda ao AMOR?!... Um dia cheguei a casa bem-disposta do trabalho... Era a hora de dizer aos meus pais a minha decisão: De dizer “SIM” ao AMOR de DEUS. Agora que já Lhe podia dizer “SIM” fui tentando resistir ao Seu apelo. Porquê precisamente a mim? Porquê não a outra mais valente, com mais estudos, mais simpática do que eu? ... Será que não vês que não sirvo? - É que na verdade não estava dentro dos meus projetos ser religiosa. Apesar da minha resistência, Jesus foi-me conquistando sem dar razões, sem explicar porquê. Simplesmente dizia: - Tóna, quero que venhas comigo. O que ao princípio parecia um sacrifício enorme (abandonar a família, não ter filhos do próprio sangue, distanciar-se dos amigos...), tudo isso que parecia marcado como negativo, como cruz, renúncia e sofrimento, foi tudo o contrário. O consolo de sentir-me chamada, :1 Paz e a Alegria de estar com Ele, foram crescendo de tal maneira que o desejo de ir com Jesus, porque Ele queria, facilitou-me dar o passo para entrar na Congregação das Servas de Maria Ministras dos Enfermos. No Convento encontrei um novo lar, onde realmente me sinto em casa. Preparei-me tirando o curso que me atraía - enfermeira - que serve também para o nosso “ministério” apostólico. Repassando estes 25 anos de Vida Consagrada, em poucas palavras posso dizer-vos que: VALE a PENA SER FREIRA, é FIXE!!! Ser a mão consoladora de Deus para animar, confortar,’’ fortalecer, curar ... Que missão bela e maravilhosa! ... Tu, jovem, que sentes o apelo ele Deus convidando-te a seguir Jesus Cristo, não hesites. SEGUE-O com a determinação dos Apóstolos, que imediatamente deixaram as redes, deixaram tudo para O seguir. Podeis contar com a certeza da minha oração. Tóna Guerra de Pinho, 27º C.F. A Desventura da Droga Encontrava-me de assistência num hospital, quando internavam uma jovem. Passou uma enfermeira por mim, e disse-me: Irmã, acaba de entrar uma drogadazita… Que juventude! (dizia com cara de desprezo). As horas vão passando e a noite vai avançando. Entretanto… ouve-se um murmúrio pelos corredores. – Alguém me chama. Irmã, venha. Saio, e encontro a maioria dos doentes a “espectadores”. A protagonista era a Mercedes, que mais tarde me disse, com muito carinho, o seu nome. Podeis imaginar o que é depois do injetar-se, tomar ainda uma boa dose de pastilhas (calmantes), estas roubadas na farmácia, quando viu que tudo estava disperso e tranquilo. Vejo o panorama e fico sem saber o que fazer. Mas não podia ficar parada em tais circunstâncias. Avanço entre os doentes e vou convencendo a Mercedes a que me acompanhe. Todos sabiam atirar-lhe pedras… e a pobrezita, envergonhada, por os insultos que lhe davam… não queria que a acompanhasse. Felizmente chegamos de novo ao seu quarto e entrei em contato mais íntimo com ela. E… depois de uma longa conversa, perguntei-lhe porque tomou as pastilhas. Respondeu-me: - É o meu corpo, irmã, este desgraçado corpo que me pede e não há obstáculo que lhe resista. E continuou: Não podes imaginar as barbaridades que tenho realizado para obter essa porcarias, as mais baixas e repugnantes!... Esta vez, tem que ser a última (dizia chorando). Sabe, Irmã, já me levaram várias vezes à polícia; já sou conhecida deles e sempre me mandam para casa, sempre lhes prometo que jamais me drogarei. Mas, quando consigo libertar-me… me aparece à volta da esquina, e… é preciso ter força, muita força para dar-me conta de que tudo isso é uma porcaria. E adormeceu dizendo isso. Mercedes tinha fome de ser escutada, de ser compreendida, de ser amada. Abandonei o seu quarto pensando naquelas palavras de “Bougand”. “A oração é a confissão de uma impotência que espera”, e simplesmente rezei, orei intensamente ao Senhor para que remediasse a minha impotência; ao mesmo tempo o Senhor me ia inspirando algo que eu passava para o papel. E à hora de abandonar meto-lhe o papel debaixo da almofada e vou para o convento. No outro dia, quando chego ao hospital, vejo a Mercedes nas escadas. Quando me vê corre para abraçar-me, agradecendo o papel que lhe tinha escrito… e dizia: “Vou guardar esta carta como ouro em pano”. Amigos convivias, não é preciso ser religiosa para fazer felizes as pessoas que possam passar pela nossa vida. Não negues nunca o teu sorriso. Alguém dizia: um sorriso não custa nada, mas vale tanto! Deus ama a todos, amemos também nós a todos por meio de Cristo. Irmã Tona – 27º
  5. Queridos irmãos e irmãs! Pedi a toda a Igreja que vivesse um tempo extraordinário de missionariedade no mês de outubro de 2019, para comemorar o centenário da promulgação da Carta apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV (30 de novembro de 1919). A clarividência profética da sua proposta apostólica confirmou-me como é importante, ainda hoje, renovar o compromisso missionário da Igreja, potenciar evangelicamente a sua missão de anunciar e levar ao mundo a salvação de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. O título desta mensagem – «batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo» – é o mesmo do Outubro Missionário. A celebração deste mês ajudar-nos-á, em primeiro lugar, a reencontrar o sentido missionário da nossa adesão de fé a Jesus Cristo, fé recebida como dom gratuito no Batismo. O ato, pelo qual somos feitos filhos de Deus, sempre é eclesial, nunca individual: da comunhão com Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, nasce uma vida nova partilhada com muitos outros irmãos e irmãs. E esta vida divina não é um produto para vender – não fazemos proselitismo –, mas uma riqueza para dar, comunicar, anunciar: eis o sentido da missão. Recebemos gratuitamente este dom, e gratuitamente o partilhamos (cf. Mt 10, 8), sem excluir ninguém. Deus quer que todos os homens sejam salvos, chegando ao conhecimento da verdade e à experiência da sua misericórdia por meio da Igreja, sacramento universal da salvação (cf. 1 Tm 2, 4; 3, 15; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 48). A Igreja está em missão no mundo: a fé em Jesus Cristo dá-nos a justa dimensão de todas as coisas, fazendo-nos ver o mundo com os olhos e o coração de Deus; a esperança abre-nos aos horizontes eternos da vida divina, de que verdadeiramente participamos; a caridade, que antegozamos nos sacramentos e no amor fraterno, impele-nos até aos confins da terra (cf. Miq 5, 3; Mt 28, 19; At 1, 8; Rm 10, 18). Uma Igreja em saída até aos extremos confins requer constante e permanente conversão missionária. Quantos santos, quantas mulheres e homens de fé nos dão testemunho, mostrando como possível e praticável esta abertura ilimitada, esta saída misericordiosa ditada pelo impulso urgente do amor e da sua lógica intrínseca de dom, sacrifício e gratuidade (cf. 2 Cor 5, 14-21)! Sê homem de Deus, que anuncia Deus (cf. Carta ap. Maximum illud): este mandato toca-nos de perto. Eu sou sempre uma missão; tu és sempre uma missão; cada batizada e batizado é uma missão. Quem ama, põe-se em movimento, sente-se impelido para fora de si mesmo: é atraído e atrai; dá-se ao outro e tece relações que geram vida. Para o amor de Deus, ninguém é inútil nem insignificante. Cada um de nós é uma missão no mundo, porque fruto do amor de Deus. Ainda que meu pai e minha mãe traíssem o amor com a mentira, o ódio e a infidelidade, Deus nunca Se subtrai ao dom da vida e, desde sempre, deu como destino a cada um dos seus filhos a própria vida divina e eterna (cf. Ef 1, 3-6). Esta vida é-nos comunicada no Batismo, que nos dá a fé em Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, regenera à imagem e semelhança de Deus e insere no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Por conseguinte, neste sentido, o Batismo é verdadeiramente necessário para a salvação, pois garante-nos que somos filhos e filhas, sempre e em toda parte: jamais seremos órfãos, estrangeiros ou escravos na casa do Pai. Aquilo que, no cristão, é realidade sacramental – com a sua plenitude na Eucaristia –, permanece vocação e destino para todo o homem e mulher à espera de conversão e salvação. Com efeito, o Batismo é promessa realizada do dom divino, que torna o ser humano filho no Filho. Somos filhos dos nossos pais naturais, mas, no Batismo, é-nos dada a paternidade primordial e a verdadeira maternidade: não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe (cf. São Cipriano, A unidade da Igreja, 4). Assim, a nossa missão radica-se na paternidade de Deus e na maternidade da Igreja, porque é inerente ao Batismo o envio expresso por Jesus no mandato pascal: como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós, cheios de Espírito Santo para a reconciliação do mundo (cf. Jo 20, 19-23; Mt 28, 16-20). Este envio incumbe ao cristão, para que a ninguém falte o anúncio da sua vocação a filho adotivo, a certeza da sua dignidade pessoal e do valor intrínseco de cada vida humana desde a conceção até à sua morte natural. O secularismo difuso, quando se torna rejeição positiva e cultural da paternidade ativa de Deus na nossa história, impede toda e qualquer fraternidade universal autêntica, que se manifesta no respeito mútuo pela vida de cada um. Sem o Deus de Jesus Cristo, toda a diferença fica reduzida a ameaça infernal, tornando impossível qualquer aceitação fraterna e unidade fecunda do género humano. O destino universal da salvação, oferecida por Deus em Jesus Cristo, levou Bento XV a exigir a superação de todo o fechamento nacionalista e etnocêntrico, de toda a mistura do anúncio do Evangelho com os interesses económicos e militares das potências coloniais. Na sua Carta apostólica Maximum illud, o Papa lembrava que a universalidade divina da missão da Igreja exige o abandono duma pertença exclusivista à própria pátria e à própria etnia. A abertura da cultura e da comunidade à novidade salvífica de Jesus Cristo requer a superação de toda a indevida introversão étnica e eclesial. Também hoje, a Igreja continua a necessitar de homens e mulheres que, em virtude do seu Batismo, respondam generosamente à chamada para sair da sua própria casa, da sua família, da sua pátria, da sua própria língua, da sua Igreja local. São enviados aos gentios, ao mundo ainda não transfigurado pelos sacramentos de Jesus Cristo e da sua Igreja santa. Anunciando a Palavra de Deus, testemunhando o Evangelho e celebrando a vida do Espírito, chamam à conversão, batizam e oferecem a salvação cristã no respeito pela liberdade pessoal de cada um, em diálogo com as culturas e as religiões dos povos a quem são enviados. Assim a missio ad gentes, sempre necessária na Igreja, contribui de maneira fundamental para o processo permanente de conversão de todos os cristãos. A fé na Páscoa de Jesus, o envio eclesial batismal, a saída geográfica e cultural de si mesmo e da sua própria casa, a necessidade de salvação do pecado e a libertação do mal pessoal e social exigem a missão até aos últimos confins da terra. A coincidência providencial do Mês Missionário Extraordinário com a celebração do Sínodo Especial sobre as Igrejas na Amazónia leva-me a assinalar como a missão, que nos foi confiada por Jesus com o dom do seu Espírito, ainda seja atual e necessária também para aquelas terras e seus habitantes. Um renovado Pentecostes abra de par em par as portas da Igreja, a fim de que nenhuma cultura permaneça fechada em si mesma e nenhum povo fique isolado, mas se abra à comunhão universal da fé. Que ninguém fique fechado em si mesmo, na autorreferencialidade da sua própria pertença étnica e religiosa. A Páscoa de Jesus rompe os limites estreitos de mundos, religiões e culturas, chamando-os a crescer no respeito pela dignidade do homem e da mulher, rumo a uma conversão cada vez mais plena à Verdade do Senhor Ressuscitado, que dá a verdadeira vida a todos. A este respeito, recordo as palavras do Papa Bento XVI no início do nosso encontro de Bispos Latino-Americanos na Aparecida, Brasil, em 2007, palavras que desejo transcrever aqui e subscrevê-las: «O que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do Batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. (...) O Verbo de Deus, fazendo-Se carne em Jesus Cristo, fez-Se também história e cultura. A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas uma regressão. Na realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado» [Discurso na Sessão Inaugural (13 de maio de 2007), 1: Insegnamenti III/1 (2007), 855-856]. A Maria, nossa Mãe, confiamos a missão da Igreja. Unida ao seu Filho, desde a encarnação, a Virgem colocou-se em movimento, deixando-se envolver-se totalmente pela missão de Jesus; missão que, ao pé da cruz, havia de se tornar também a sua missão: colaborar como Mãe da Igreja para gerar, no Espírito e na fé, novos filhos e filhas de Deus. Gostaria de concluir com uma breve palavra sobre as Pontifícias Obras Missionárias, que a Carta apostólica Maximum illud já apresentava como instrumentos missionários. De facto, como uma rede global que apoia o Papa no seu compromisso missionário, prestam o seu serviço à universalidade eclesial mediante a oração, alma da missão, e a caridade dos cristãos espalhados pelo mundo inteiro. A oferta deles ajuda o Papa na evangelização das Igrejas particulares (Obra da Propagação da Fé), na formação do clero local (Obra de São Pedro Apóstolo), na educação duma consciência missionária das crianças de todo o mundo (Obra da Santa Infância) e na formação missionária da fé dos cristãos (Pontifícia União Missionária). Ao renovar o meu apoio a estas Obras, espero que o Mês Missionário Extraordinário de outubro de 2019 contribua para a renovação do seu serviço missionário ao meu ministério. Aos missionários e às missionárias e a todos aqueles que de algum modo participam, em virtude do seu Batismo, na missão da Igreja, de coração envio a minha bênção. Vaticano, 9 de junho – Solenidade de Pentecostes – de 2019. FRANCISCO
  6. Carta apostolica “VOS ESTIS LUX MUNDI”

    «Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte» (Mt 5, 14). Nosso Senhor Jesus Cristo chama cada fiel a ser exemplo luminoso de virtude, integridade e santidade. Com efeito, todos nós somos chamados a dar testemunho concreto da fé em Cristo na nossa vida e, de modo particular, na nossa relação com o próximo. Os crimes de abuso sexual ofendem Nosso Senhor, causam danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e lesam a comunidade dos fiéis. Para que tais fenómenos, em todas as suas formas, não aconteçam mais, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por ações concretas e eficazes que envolvam a todos na Igreja, de modo que a santidade pessoal e o empenho moral possam concorrer para fomentar a plena credibilidade do anúncio evangélico e a eficácia da missão da Igreja. Isto só se torna possível com a graça do Espírito Santo derramado nos corações, porque sempre nos devemos lembrar das palavras de Jesus: «Sem Mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5). Embora já muito se tenha feito, devemos continuar a aprender das lições amargas do passado a fim de olhar com esperança para o futuro. Esta responsabilidade recai, em primeiro lugar, sobre os sucessores dos Apóstolos, colocados por Deus no governo pastoral do seu povo, e exige deles o empenho de seguir de perto os passos do Divino Mestre. Na realidade, em virtude do seu ministério, eles regem «as Igrejas particulares que lhes foram confiadas como vigários e legados de Cristo, por meio de conselhos, persuasões, exemplos, mas também com autoridade e poder sagrado, que exercem unicamente para edificar o próprio rebanho na verdade e na santidade, lembrados de que aquele que é maior se deve fazer como o menor, e o que preside como aquele que serve» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. Lumen gentium, 27). E aquilo que de forma mais impelente diz respeito aos sucessores dos Apóstolos concerne a todos aqueles que, de diferentes maneiras, assumem ministérios na Igreja, professam os conselhos evangélicos ou são chamados a servir o povo cristão. Por isso, é bom que se adotem, a nível universal, procedimentos tendentes a prevenir e contrastar estes crimes que atraiçoam a confiança dos fiéis. Desejo que este compromisso se implemente de forma plenamente eclesial e, por conseguinte, seja expressão da comunhão que nos mantém unidos, na escuta mútua e aberta às contribuições de todos aqueles que têm a peito este processo de conversão. Por isso estabeleço: TÍTULO I DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 1 – Âmbito de aplicação § 1. Estas normas aplicam-se em caso de assinalações relativas a clérigos ou a membros de Institutos de Vida Consagrada ou de Sociedades de Vida Apostólica e concernentes a: a) delitos contra o sexto mandamento do Decálogo que consistam: I. em forçar alguém, com violência, ameaça ou abuso de autoridade, a realizar ou sofrer atos sexuais; II. em realizar atos sexuais com um menor ou com uma pessoa vulnerável; III. na produção, exibição, posse ou distribuição, inclusive por via telemática, de material pornográfico infantil, bem como no recrutamento ou indução dum menor ou duma pessoa vulnerável a participar em exibições pornográficas; b) em condutas realizadas pelos sujeitos a que se refere o artigo 6, consistindo em ações ou omissões tendentes a interferir ou contornar as investigações civis ou as investigações canónicas, administrativas ou criminais, contra um clérigo ou um religioso relativas aos delitos a que se refere a alínea a) deste parágrafo. § 2. Para efeitos destas normas, entende-se por: a) «menor»: toda a pessoa que tiver idade inferior a dezoito anos, ou a ela equiparada por lei; b) «pessoa vulnerável»: toda a pessoa em estado de enfermidade, deficiência física ou psíquica, ou de privação da liberdade pessoal que de facto, mesmo ocasionalmente, limite a sua capacidade de entender ou querer ou, em todo o caso, de resistir à ofensa; c) «material pornográfico infantil»: qualquer representação dum menor, independentemente do meio utilizado, envolvido em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, e qualquer representação de órgãos sexuais de menores para fins predominantemente sexuais. Art. 2 - Receção das assinalações e proteção dos dados § 1. Tendo em conta as indicações eventualmente adotadas pelas respetivas Conferências Episcopais, pelos Sínodos dos Bispos das Igrejas Patriarcais e das Igrejas Arquiepiscopais Maiores, ou pelos Conselhos dos Hierarcas das Igrejas Metropolitanas sui iuris, as Dioceses ou as Eparquias, individualmente ou em conjunto, devem estabelecer, dentro de um ano a partir da entrada em vigor destas normas, um ou mais sistemas estáveis e facilmente acessíveis ao público para apresentar as assinalações, inclusive através da instituição duma peculiar repartição eclesiástica. As Dioceses e as Eparquias informam o Representante Pontifício que foram instituídos os sistemas referidos neste parágrafo. § 2. As informações a que se refere este artigo são tuteladas e tratadas de forma a garantir a sua segurança, integridade e confidencialidade nos termos dos cânones 471-2° CIC e 244-§ 2, 2° CCEO. § 3. Ressalvado o disposto no artigo 3-§ 3, o Ordinário que recebeu a assinalação transmite-a sem demora ao Ordinário do lugar onde teriam ocorrido os factos, bem como ao Ordinário próprio da pessoa indicada, os quais procedem de acordo com o direito segundo o previsto para o caso específico. § 4. Para efeitos deste título, são equiparadas às Dioceses as Eparquias, e ao Ordinário é equiparado o Hierarca. Art. 3 – Assinalação § 1. Exceto nos casos previstos nos cânones 1548-§ 2 CIC e 1229-§ 2 CCEO, sempre que um clérigo ou um membro dum Instituto de Vida Consagrada ou duma Sociedade de Vida Apostólica saiba ou tenha fundados motivos para supor que foi praticado um dos factos a que se refere o artigo 1, tem a obrigação de assinalar prontamente o facto ao Ordinário do lugar onde teriam ocorrido os factos ou a outro Ordinário dentre os referidos nos cânones 134 CIC e 984 CCEO, ressalvado o estabelecido no § 3 deste artigo. § 2. Qualquer pessoa pode apresentar uma assinalação respeitante às condutas a que se refere o artigo 1, servindo-se das modalidades referidas no artigo anterior ou de qualquer outro modo apropriado. § 3. Quando a assinalação diz respeito a uma das pessoas indicadas no artigo 6, a mesma é encaminhada para a autoridade individuada com base nos artigos 8 e 9. A assinalação pode sempre ser dirigida à Santa Sé, diretamente ou através do Representante Pontifício. § 4. A assinalação contém os elementos o mais possível detalhados, tais como indicações de tempo e local dos factos, das pessoas envolvidas ou informadas, bem como qualquer outra circunstância que possa ser útil para assegurar uma cuidadosa avaliação dos factos. § 5. As informações podem também ser adquiridas ex officio. Art. 4 – Tutela de quem faz a assinalação § 1. O facto de fazer uma assinalação, como estabelece o artigo 3, não constitui uma violação do sigilo profissional. § 2. Ressalvado quanto previsto no cânone 1390 CIC e nos cânones 1452 e 1454 CCEO, são proibidos e podem abranger a conduta referida no artigo 1-§ 1, alínea b), danos, retaliações ou discriminações pelo facto de ter feito uma assinalação. § 3. A quem faz uma assinalação, não pode ser imposto qualquer ónus de silêncio a respeito do conteúdo da mesma. Art. 5 – Cuidados prestados às pessoas § 1. As autoridades eclesiásticas empenham-se para que sejam tratados com dignidade e respeito quantos afirmam que foram ofendidos, juntamente com as suas famílias, e proporcionam-lhes em particular: a) acolhimento, escuta e acompanhamento, inclusive através de serviços específicos; b) assistência espiritual; c) assistência médica, terapêutica e psicológica de acordo com o caso específico. § 2. São tuteladas a imagem e a esfera privada das pessoas envolvidas, bem como a confidencialidade dos dados pessoais. TÍTULO II DISPOSIÇÕES RELATIVAS AOS BISPOS E EQUIPARADOS Art. 6 – Âmbito subjetivo de aplicação As normas processuais a que alude este título dizem respeito às condutas referidas no artigo 1 implementadas por: a) Cardeais, Patriarcas, Bispos e Legados do Romano Pontífice; b) clérigos que se ocupam ou ocuparam do governo pastoral duma Igreja particular ou duma entidade a ela assimilada, latina ou oriental, incluindo os Ordinariatos pessoais, pelos factos praticados durante munere; c) clérigos que se ocupam ou ocuparam do governo pastoral duma Prelatura pessoal, pelos factos praticados durante munere; d) aqueles que são ou foram Moderadores supremos de Institutos de Vida Consagrada ou de Sociedades de Vida Apostólica de direito pontifício, bem como de Mosteiros sui iuris, pelos factos praticados durante munere. Art. 7 – Dicastério competente § 1. Para efeitos deste título, entende-se por «Dicastério competente» a Congregação para a Doutrina da Fé, para os delitos a ela reservados pelas normas em vigor, bem como, em todos os outros casos, naquilo que é da respetiva competência estabelecida na lei própria da Cúria Romana: - a Congregação para as Igrejas Orientais; - a Congregação para os Bispos; - a Congregação para a Evangelização dos Povos; - a Congregação para o Clero; - a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. § 2. A fim de se assegurar a melhor coordenação, o Dicastério competente informa a Secretaria de Estado e os outros Dicastérios diretamente interessados acerca da assinalação e do resultado da investigação. § 3. As comunicações previstas neste título entre o Metropolita e a Santa Sé realizam-se através do Representante Pontifício. Art. 8 – Procedimento aplicável em caso de assinalação relativa a um Bispo da Igreja Latina § 1. A autoridade que recebe uma assinalação transmite-a quer à Santa Sé quer ao Metropolita da Província Eclesiástica onde tem domicílio a pessoa indicada. § 2. No caso da assinalação se referir ao Metropolita ou estiver vacante a Sé Metropolitana, aquela será transmitida à Santa Sé, bem como ao Bispo sufragâneo mais antigo por promoção, a quem, neste caso, se aplicam as sucessivas disposições relativas ao Metropolita. § 3. No caso da assinalação se referir a um Legado Pontifício, a mesma é transmitida diretamente à Secretaria de Estado. Art. 9 - Procedimento aplicável a Bispos das Igrejas Orientais § 1. No caso de assinalações contra um Bispo duma Igreja Patriarcal, Arquiepiscopal Maior ou Metropolitana sui iuris, a mesma é transmitida ao respetivo Patriarca, Arcebispo Maior ou Metropolita da Igreja sui iuris. § 2. Se a assinalação se referir a um Metropolita duma Igreja Patriarcal ou Arquiepiscopal Maior, que exerce o seu cargo dentro do território destas Igrejas, aquela é transmitida ao respetivo Patriarca ou Arcebispo Maior. § 3. Nos casos anteriores, a autoridade que recebeu a assinalação transmite-a também à Santa Sé. § 4. Se a pessoa assinalada for um Bispo ou um Metropolita fora do território da Igreja Patriarcal, Arquiepiscopal Maior ou Metropolitana sui iuris, a assinalação é transmitida à Santa Sé. § 5. No caso da assinalação se referir a um Patriarca, um Arcebispo Maior, um Metropolita duma Igreja sui iuris ou um Bispo das outras Igrejas Orientais sui iuris, aquela é transmitida à Santa Sé. § 6. As sucessivas disposições relativas ao Metropolita aplicam-se à autoridade eclesiástica a quem é transmitida a assinalação nos termos deste artigo. Art. 10 – Deveres iniciais do Metropolita § 1. A não ser que a assinalação se revele claramente infundada, o Metropolita solicita prontamente ao Dicastério competente o encargo para iniciar a investigação. Se o Metropolita considerar a assinalação claramente infundada, informa disso mesmo o Representante Pontifício. § 2. O Dicastério provê sem demora, e em todo o caso dentro de trinta dias a contar da receção da primeira assinalação pelo Representante Pontifício ou da solicitação do encargo por parte do Metropolita, fornecendo as instruções adequadas sobre como proceder no caso concreto. Art. 11 – Entrega da investigação a pessoa diferente do Metropolita § 1. Se o Dicastério competente considerar oportuno confiar a investigação a uma pessoa diferente do Metropolita, este será informado. O Metropolita entrega todas as informações e os documentos relevantes à pessoa encarregada pelo Dicastério. § 2. No caso referido no parágrafo anterior, as sucessivas disposições relativas ao Metropolita aplicam-se à pessoa encarregada de conduzir a investigação. Art. 12 – Realização da investigação § 1. O Metropolita, uma vez obtido o encargo do Dicastério competente e no respeito das instruções recebidas, pessoalmente ou através de uma ou mais pessoas idóneas: a) recolhe as informações relevantes a propósito dos factos; b) toma conhecimento das informações e documentos necessários para a investigação guardados nos arquivos dos departamentos eclesiásticos; c) obtém, quando necessária, a colaboração doutros Ordinários ou Hierarcas; d) solicita informações aos indivíduos e às instituições, mesmo civis, que forem capazes de fornecer elementos úteis para a investigação. § 2. Se for necessário ouvir um menor ou uma pessoa vulnerável, o Metropolita adota modalidades adequadas, que tenham em conta o seu estado. § 3. No caso de haver fundados motivos para considerar que informações ou documentos relativos à investigação possam ser subtraídos ou destruídos, o Metropolita adota as medidas necessárias para a sua preservação. § 4. Mesmo quando se serve doutras pessoas, o Metropolita permanece, em todo o caso, responsável pela direção e a realização das investigações, bem como pela execução precisa das instruções previstas no artigo 10-§ 2. § 5. O Metropolita é assistido por um notário, escolhido livremente de acordo com os cânones 483-§ 2 CIC e 253-§ 2 CCEO. § 6. O Metropolita é obrigado a agir de forma imparcial e livre de conflito de interesses. Se considerar que se encontra em conflito de interesses ou não é capaz de manter a imparcialidade necessária para garantir a integridade da investigação, é obrigado a abster-se e referir a circunstância ao Dicastério competente. § 7. À pessoa sob investigação é reconhecida a presunção de inocência. § 8. O Metropolita, se solicitado pelo Dicastério competente, informa a pessoa da investigação contra ela, ouve-a sobre os factos e convida-a a apresentar um memorial de defesa. Em tais casos, a pessoa investigada pode servir-se dum procurador. § 9. De trinta em trinta dias, o Metropolita transmite ao Dicastério competente um relatório informativo sobre o estado das investigações. Art. 13 – Intervenção de pessoas qualificadas § 1. De acordo com eventuais diretrizes da Conferência Episcopal, do Sínodo dos Bispos ou do Conselho dos Hierarcas sobre o modo como ajudar o Metropolita nas investigações, os Bispos da respetiva Província, individualmente ou em conjunto, podem elaborar listas de pessoas qualificadas, dentre as quais o Metropolita pode escolher as mais idóneas para o assistir na investigação, conforme as necessidades do caso e, em particular, tendo em conta a cooperação que pode ser oferecida pelos leigos nos termos dos cânones 228 CIC e 408 CCEO. § 2. Em todo o caso, o Metropolita é livre para escolher outras pessoas igualmente qualificadas. § 3. Quem quer que assista o Metropolita na investigação é obrigado a agir de forma imparcial e livre de conflito de interesses. Se considerar que se encontra em conflito de interesses ou não é capaz de manter a imparcialidade necessária para garantir a integridade da investigação, é obrigado a abster-se e referir a circunstância ao Metropolita. § 4. As pessoas que assistem o Metropolita prestam juramento de cumprir digna e fielmente o encargo. Art. 14 – Duração da investigação § 1. As investigações devem ser concluídas no prazo de noventa dias ou no tempo indicado pelas instruções previstas no artigo 10-§ 2. § 2. Por justos motivos, o Metropolita pode pedir a extensão do prazo ao Dicastério competente. Art. 15 - Medidas cautelares Se os factos ou as circunstâncias o exigirem, o Metropolita propõe ao Dicastério competente a adoção de disposições ou de medidas cautelares apropriadas contra o investigado. Art. 16 – Instituição dum Fundo § 1. As Províncias Eclesiásticas, as Conferências Episcopais, os Sínodos dos Bispos e os Conselhos dos Hierarcas podem estabelecer um Fundo destinado a sustentar as despesas com as investigações, instituído de acordo com os cânones 116 e 1303-§ 1,1º CIC e 1047 CCEO, e administrado segundo as normas do direito canónico. § 2. A pedido do Metropolita designado, os fundos necessários para a investigação são colocados à sua disposição pelo administrador do Fundo, salvaguardado o dever de apresentar a este último um relatório financeiro no fim da investigação. Art. 17 - Transmissão das atas e do votum § 1. Completada a investigação, o Metropolita transmite as atas ao Dicastério competente juntamente com o seu próprio votum sobre os resultados da investigação e dando resposta a eventuais quesitos postos nas instruções referidas no artigo 10-§ 2. § 2. A não ser que haja sucessivas instruções do Dicastério competente, as faculdades do Metropolita cessam quando a investigação estiver completada. § 3. No respeito pelas instruções do Dicastério competente, o Metropolita, se lhe for pedido, informa acerca do resultado da investigação a pessoa que afirma ter sido ofendida ou os seus representantes legais. Art. 18 – Medidas sucessivas O Dicastério competente, a não ser que decida organizar uma investigação suplementar, procede nos termos do direito, de acordo com o previsto para o caso específico. Art. 19 – Observância das leis estatais Estas normas aplicam-se sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada local pelas leis estatais, particularmente aquelas relativas a eventuais obrigações de assinalação às autoridades civis competentes. Estas normas são aprovadas ad experimentum por um triénio. Estabeleço que esta Carta Apostólica sob forma de Motu Proprio seja promulgada através da sua publicação no jornal L’Osservatore Romano, entrando em vigor no dia 1 de junho de 2019, e seja depois publicada no boletim Acta Apostolicae Sedis. Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 9 de maio do ano 2019, sétimo de pontificado. Francisco
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